Ana Bandarra* Há acontecimentos que ultrapassam a dimensão de um evento. Tornam-se símbolos. O 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS), promovido pela Academia de Letras de Porto Seguro no dia 28 de agosto, no Cempec, foi um desses momentos. Em uma cidade frequentemente lembrada como marco da chegada dos portugueses ao Brasil, o encontro propôs um movimento inverso: o retorno às vozes que já habitavam este território muito antes de qualquer carta, mapa ou registro oficial. Afinal, o que vai, de onde nasce, sempre volta. Reunindo pesquisadores indígenas, educadores, escritores, estudantes, acadêmicos e representantes da comunidade, o evento tornou-se um espaço de escuta e reflexão sobre a riqueza linguística e cultural dos povos originários. Mais do que discutir idiomas, discutiu-se pertencimento, memória e continuidade. A mesa de debates foi coordenada pela professora, escritora, pesquisadora e acadêmica Adriana Pesca Pataxó, com a participação dos professores indígenas Awoy Pataxó e David Kaique Pataxó. Em suas falas, a retomada do Patxôhã, as Línguas Indígenas de Sinais e a Língua Indígena Pataxó de Sinais revelaram-se não apenas instrumentos de comunicação, mas expressões vivas de identidade e resistência cultural. A presença dessas línguas reafirmou que cada palavra preservada carrega uma visão de mundo, uma memória coletiva e um elo entre passado, presente e futuro. Quando uma língua retorna ao cotidiano de seu povo, não retorna sozinha: com ela voltam histórias, conhecimentos, afetos e modos singulares de compreender a existência. Talvez o aspecto mais simbólico da noite tenha sido perceber que aquilo que um dia se tentou apagar encontrou caminhos para retornar. Uma língua silenciada pela história reaparece viva na voz de seu povo. Saberes ancestrais, durante séculos colocados à margem, atravessam as fronteiras do tempo e passam a ocupar espaços de reconhecimento, como uma Academia de Letras. E uma história brasileira inicialmente registrada pelo olhar português é revisitada pelas línguas e memórias daqueles que já estavam aqui muito antes da chegada das caravelas. Essa mesma perspectiva esteve presente na participação de Carleone Filho, diretor do CEMPEC (Centro Municipal de Educação, Pesquisa e Cultura), que apresentou ao público uma réplica da Carta de Pero Vaz de Caminha, documento transcrito por indígenas e pela Coordenação da Educação Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Porto Seguro, com apoio do CEMPEC e da Biblioteca Municipal de Porto Seguro, por meio de seu diretor, Laércio da Silva. O gesto ultrapassou o valor documental. Simbolicamente, permitiu que uma das primeiras narrativas escritas sobre esta terra fosse revisitada pelos descendentes daqueles que nela já viviam, ampliando a reflexão sobre memória, identidade e pertencimento. Entre os momentos mais marcantes da noite esteve a apresentação do poema Água Batendo na Pedra (2020), de autoria da professora Adriana Pesca Pataxó, interpretado em Língua Indígena de Sinais. Inspirado na narrativa sobre a origem do nome Pataxó, o poema uniu ancestralidade, território e acessibilidade em uma expressão artística que demonstrou que a cultura não apenas resiste ao tempo: ela encontra novos caminhos para permanecer. Ao final, ficou evidente que o encontro não tratou apenas da preservação de línguas indígenas. Tratou da permanência de um povo, de seus saberes e de sua memória. Em um tempo marcado pela velocidade e pelo esquecimento, o evento reafirmou que algumas heranças não desaparecem. Elas aguardam o momento de serem novamente ouvidas. Porque o que vai, de onde nasce, sempre volta. Ana Bandarra é advogada e escritora
A Academia de Letras de Porto Seguro, na noite de 28 de agosto, no CEMPEC, promoveu o 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS). Coordenado pela acadêmica, professora e pesquisadora Adriana Pesca Pataxó, o encontro integrou pesquisadores indígenas, membros da Academia e comunidade em uma noite dedicada à reflexão sobre o fortalecimento das línguas originárias, a retomada do Patxohã e a importância das línguas indígenas de sinais. A atividade representa mais um passo da Academia na ampliação de sua relação com os povos originários e na construção de espaços permanentes para o diálogo entre literatura, memória, ancestralidade, pesquisa e produção intelectual indígena. Na abertura, o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira, destacou o caráter histórico do momento e a importância de a instituição atuar conjuntamente com o povo Pataxó no processo de fortalecimento do Patxohã. Em sua fala, ressaltou que a língua é um dos principais elementos de preservação da identidade e da memória de um povo e que a Academia pretende contribuir para ampliar os espaços de valorização, pesquisa, produção literária e difusão da cultura Pataxó. Na sequência, o acadêmico Carleone Filho falou sobre a importância da língua materna e apresentou reflexões históricas relacionadas à presença indígena no território de Porto Seguro. Entre os temas abordados, destacou a existência da Carta de Pero Vaz de Caminha em Patxohã, atualmente em Portugal, estabelecendo uma conexão simbólica entre a história oficial do país e a língua dos povos que já habitavam estas terras. Sob a condução de Adriana Pesca Pataxó, foi realizada em seguida uma reverência ancestral, com uma prece em Patxohã. O momento colocou a língua materna e a ancestralidade no centro da programação e reforçou o protagonismo indígena que orientou todo o encontro. A retomada do Patxohã O pesquisador Awoy Pataxó apresentou seu trabalho sobre o processo de retomada linguística do povo Pataxó. Em sua exposição, mostrou como o trabalho desenvolvido por pesquisadores, educadores e comunidades contribuiu para o reavivamento de uma língua que esteve muito próxima de desaparecer. Awoy apresentou a trajetória desse processo de reconstrução e destacou que o Patxohã conta hoje com um repertório de aproximadamente quatro mil vocábulos, resultado de um trabalho contínuo de pesquisa, memória e recuperação linguística. Mais do que recuperar palavras, a retomada do Patxohã representa a reconstrução de vínculos entre gerações e o fortalecimento da identidade Pataxó. A língua volta a ocupar espaço nas aldeias, na educação indígena, nas manifestações culturais e na produção autoral, reafirmando-se como um elemento vivo da cultura do povo Pataxó. Línguas Indígenas de Sinais O pesquisador David Kaique Pataxó Hãhãhãe apresentou seus estudos sobre as Línguas Indígenas de Sinais e sobre a Língua Indígena Pataxó de Sinais. Durante sua apresentação, explicou como os sinais possuem forte relação com o território e com a observação da natureza. Elementos da mata, movimentos dos animais e referências presentes no cotidiano das comunidades tornam-se parte da construção dos sinais, evidenciando uma forma própria de compreensão e representação do mundo. David também apresentou sua trajetória de pesquisa e ofereceu ao público um panorama sobre a presença e a utilização das línguas indígenas de sinais na região e em diferentes territórios indígenas do Brasil. A apresentação permitiu compreender que essas línguas não devem ser observadas apenas pelo aspecto da acessibilidade, mas também como manifestações de identidade, cultura e memória dos povos indígenas. Literatura e sinais encerram a programação O encontro foi encerrado com uma apresentação que reuniu diferentes formas de expressão. Adriana Pesca Pataxó realizou a leitura de um poema enquanto David Kaique Pataxó Hãhãhãe fez seu acompanhamento em sinais. O momento sintetizou a proposta do evento ao aproximar literatura, língua, ancestralidade e expressão corporal. Para a Academia de Letras de Porto Seguro, a realização do encontro reafirma o compromisso de ampliar a presença dos saberes originários em sua programação e de fortalecer a participação de pesquisadores, escritores, professores e intelectuais indígenas em suas atividades. Coordenado por Adriana Pesca Pataxó, o primeiro encontro também estabelece uma base para novas ações dedicadas ao estudo, à preservação e à difusão das línguas indígenas. Ao promover esse diálogo, a Academia reconhece que a história cultural e literária de Porto Seguro não pode ser compreendida sem a presença, a memória e a produção intelectual dos povos originários. O Patxohã permanece vivo. E, junto com ele, permanecem vivas a memória, a identidade e a voz de um povo que continua escrevendo sua própria história.
Evento reúne pesquisadores indígenas para discutir retomada linguística, educação, literatura, ancestralidade e o reconhecimento das Línguas Indígenas de Sinais A Academia de Letras de Porto Seguro realiza, no próximo dia 28 de agosto, às 19h, no CEMPEC, o 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS). A iniciativa propõe um espaço de diálogo, pesquisa e valorização das línguas originárias, reunindo pesquisadores indígenas do território para refletir sobre língua, identidade, educação, literatura e ancestralidade. Com o tema “Retomada Linguística do Povo Pataxó e seus desdobramentos comunitários, curriculares e de uma produção autoral multilíngue: educação, literatura e ancestralidade”, o encontro coloca no centro do debate o protagonismo indígena nos processos de preservação, retomada e fortalecimento de suas próprias línguas. A programação será coordenada e mediada pela acadêmica Adriana Pesca Pataxó, que destaca a importância de compreender a língua como elemento fundamental de pertencimento, memória e continuidade cultural. “O primeiro encontro de línguas indígenas realizado pela Academia de Letras de Porto Seguro será um momento de diálogo entre pesquisadores indígenas do território. A proposta é refletir sobre a trajetória de retomada do Patxôhã, língua materna do povo Pataxó, e sobre o movimento linguístico pelo reconhecimento das Línguas Indígenas de Sinais e da Língua Indígena Pataxó de Sinais, em uma roda ancestral sobre demarcação linguística, retomada, ancestralidade, literatura, educação e pertencimento”, afirma Adriana Pesca Pataxó. Para o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira, a realização do encontro também representa o compromisso da instituição com a pluralidade das manifestações literárias, linguísticas e culturais presentes no território. Entre os participantes está o professor mestre Awoy Pataxó, que abordará a trajetória da retomada linguística do povo Pataxó em Coroa Vermelha, o trabalho desenvolvido pelo Centro de Pesquisa Atxôhã e a importância da língua materna para a produção autoral e para a literatura indígena. Também integra a mesa o professor doutorando David Kaique Pataxó Hãhãhãe, que apresentará uma reflexão sobre as Línguas Indígenas de Sinais (LIS), relacionando as experiências desenvolvidas no território às discussões e aos movimentos existentes em âmbito nacional e internacional. A programação prevê ainda a participação do professor Tohô Pataxó, coordenador do ensino de Patxôhã em Porto Seguro, que deverá abordar a trajetória da retomada linguística Pataxó, o ensino do Patxôhã no município, a produção de materiais didáticos bilíngues destinados às escolas indígenas e o processo de cooficialização da língua no território. O encontro parte da compreensão de que uma língua ultrapassa sua função comunicacional. Ela guarda formas de compreender o mundo, memórias coletivas, conhecimentos transmitidos entre gerações e elementos fundamentais para a identidade de um povo. Nesse sentido, discutir a retomada linguística significa também discutir território, pertencimento, produção de conhecimento e autonomia cultural. Ao promover o encontro, a Academia de Letras de Porto Seguro amplia o diálogo entre literatura, oralidade, educação e os saberes dos povos originários, reconhecendo as línguas indígenas como patrimônio vivo e como parte essencial da diversidade cultural e intelectual do território de Porto Seguro. A programação terá início às 19h, com a recepção dos convidados e participantes. Às 19h30, acontece a abertura institucional da Academia de Letras de Porto Seguro, seguida, às 19h40, pela abertura da mesa, sob mediação de Adriana Pesca Pataxó, com reverência ancestral, canto, poética do encontro e composição da mesa-redonda. As exposições dos pesquisadores começam às 20h. Após as falas dos participantes da mesa, o encontro será aberto para perguntas e diálogo com a plenária. O encerramento está previsto para as 22h30.
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