Fábio Del Porto toma posse na Academia de Letras de Porto Seguro

Jornalista e poeta passa a integrar o quadro de membros vitalícios da instituição e assume a Cadeira nº 22, que tem Moraes Moreira como patrono A Academia de Letras de Porto Seguro recebeu oficialmente, na noite de 14 de setembro de 2026, o jornalista e poeta Fábio Del Porto como seu mais novo Membro Vitalício. A Sessão Solene de Posse foi realizada na Câmara Municipal de Porto Seguro e reuniu acadêmicos, autoridades, familiares, amigos, escritores e representantes da vida cultural da cidade. Eleito em reunião realizada em 23 de abril de 2026, Fábio Del Porto ingressa na Academia em reconhecimento à trajetória construída nos campos da comunicação, do jornalismo e da literatura, além de sua atuação na vida cultural de Porto Seguro. O Ato de Eleição também destacou sua contribuição para a circulação de ideias, para a valorização da produção cultural e literária e para o fortalecimento dos espaços de diálogo entre literatura, comunicação, memória e sociedade. A Mesa de Honra da solenidade foi composta pelo presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira; pela secretária-geral, Martha Matos; pelo acadêmico Roberto Martins, decano presente à cerimônia; e pelo superintendente de Cultura de Porto Seguro, Herculano Assis. Participaram ainda dos diferentes momentos do rito acadêmico os acadêmicos Carleone Filho, Allyson Mattos, Éder Rodrigues e Adriana Pesca Pataxó. Allyson Mattos conduziu Fábio Del Porto em sua entrada solene no plenário, Éder Rodrigues realizou a leitura do Termo de Posse, Adriana Pesca Pataxó fez a leitura do Diploma Acadêmico e Roberto Martins realizou a entrega do diploma. Carleone Filho foi responsável pela condução do cerimonial da noite. Uma noite dedicada à memória e à palavra Na abertura oficial da Sessão Solene, o presidente Rod Pereira reafirmou o compromisso da Academia com a literatura, com a preservação da identidade de Porto Seguro e com a memória dos povos e das histórias que formaram o território. Durante o pronunciamento, evocou as palavras do escritor Antonio Olinto: “Existimos porque temos memória, porque a usamos contra o esquecimento.” A cerimônia reservou também um momento de homenagem à cidade com a execução do Hino de Porto Seguro, com versos de Alfredo Horcades e Murilo Araújo e música do maestro Eleazar de Carvalho, em interpretação da Banda Filarmônica Terra Mater, sob a regência de Ronald Magnavita Filho. Em seguida, a secretária-geral Martha Matos realizou a leitura do Ato de Eleição. Após ser conduzido solenemente ao plenário pelo acadêmico Allyson Mattos, Fábio Del Porto prestou o Juramento Acadêmico, assumindo publicamente o compromisso de honrar a instituição, servir às Letras, à cultura e ao conhecimento, preservar a memória, valorizar a diversidade de vozes e saberes e defender a liberdade do pensamento. A Cadeira nº 22 e o legado de Moraes Moreira Após a leitura do Termo de Posse pelo acadêmico Éder Rodrigues, o documento foi assinado por Martha Matos, Rod Pereira e Fábio Del Porto, formalizando seu ingresso no quadro acadêmico da instituição. A partir daquele ato, Fábio passou oficialmente a ocupar a Cadeira nº 22 da Academia de Letras de Porto Seguro, cujo patrono é Moraes Moreira. O patrono estabelece uma ligação especialmente significativa com a identidade cultural baiana. Com sua chegada, Fábio assume também o compromisso institucional de contribuir para o fortalecimento da literatura, da educação, da pesquisa e da cultura, para a preservação da memória e para a valorização da diversidade de vozes, identidades e saberes. Após receber o Diploma Acadêmico das mãos de Roberto Martins, Fábio Del Porto pronunciou seu discurso de posse. Sua trajetória, construída entre o jornalismo, a comunicação, a poesia e a participação na vida cultural de Porto Seguro, passa agora a integrar também a história da Academia. “Vivo este momento com muita alegria e gratidão. Fazer parte da Academia de Letras de Porto Seguro é uma honra e, ao mesmo tempo, um compromisso. Espero somar minha trajetória ao trabalho que vem sendo desenvolvido pela instituição e contribuir para que a Academia seja cada vez mais valorizada, reconhecida e próxima da comunidade”, afirmou Fábio Del Porto. Acolhido entre seus novos pares O Discurso Oficial de Recepção foi proferido pelo presidente Rod Pereira, escolhido pelo próprio Fábio para recebê-lo formalmente em nome da instituição. Durante a solenidade, a escolha foi apresentada também como expressão de uma relação construída ao longo dos anos por meio da cultura, da comunicação e de diferentes caminhos profissionais. A noite contou ainda com pronunciamento do superintendente de Cultura de Porto Seguro, Herculano Assis, reforçando a importância da aproximação entre a Academia, a cultura e a cidade. Ao final da cerimônia, os acadêmicos se reuniram ao novo confrade para a fotografia oficial da Sessão Solene. A Academia de Letras de Porto Seguro também registrou agradecimento à Câmara Municipal de Porto Seguro pelo apoio à realização do evento e pela valorização de iniciativas que contribuem para o fortalecimento da literatura, da cultura e da memória do município. A chegada de Fábio Del Porto acrescenta uma nova voz à construção permanente da Academia de Letras de Porto Seguro. Entre comunicação, jornalismo e literatura, sua trajetória passa, a partir de agora, a integrar oficialmente a memória e a história desta Casa de Letras.

O que vai, de onde nasce, sempre volta

Ana Bandarra* Há acontecimentos que ultrapassam a dimensão de um evento. Tornam-se símbolos. O 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS), promovido pela Academia de Letras de Porto Seguro no dia 28 de agosto, no Cempec, foi um desses momentos. Em uma cidade frequentemente lembrada como marco da chegada dos portugueses ao Brasil, o encontro propôs um movimento inverso: o retorno às vozes que já habitavam este território muito antes de qualquer carta, mapa ou registro oficial. Afinal, o que vai, de onde nasce, sempre volta. Reunindo pesquisadores indígenas, educadores, escritores, estudantes, acadêmicos e representantes da comunidade, o evento tornou-se um espaço de escuta e reflexão sobre a riqueza linguística e cultural dos povos originários. Mais do que discutir idiomas, discutiu-se pertencimento, memória e continuidade. A mesa de debates foi coordenada pela professora, escritora, pesquisadora e acadêmica Adriana Pesca Pataxó, com a participação dos professores indígenas Awoy Pataxó e David Kaique Pataxó. Em suas falas, a retomada do Patxôhã, as Línguas Indígenas de Sinais e a Língua Indígena Pataxó de Sinais revelaram-se não apenas instrumentos de comunicação, mas expressões vivas de identidade e resistência cultural. A presença dessas línguas reafirmou que cada palavra preservada carrega uma visão de mundo, uma memória coletiva e um elo entre passado, presente e futuro. Quando uma língua retorna ao cotidiano de seu povo, não retorna sozinha: com ela voltam histórias, conhecimentos, afetos e modos singulares de compreender a existência. Talvez o aspecto mais simbólico da noite tenha sido perceber que aquilo que um dia se tentou apagar encontrou caminhos para retornar. Uma língua silenciada pela história reaparece viva na voz de seu povo. Saberes ancestrais, durante séculos colocados à margem, atravessam as fronteiras do tempo e passam a ocupar espaços de reconhecimento, como uma Academia de Letras. E uma história brasileira inicialmente registrada pelo olhar português é revisitada pelas línguas e memórias daqueles que já estavam aqui muito antes da chegada das caravelas. Essa mesma perspectiva esteve presente na participação de Carleone Filho, diretor do CEMPEC (Centro Municipal de Educação, Pesquisa e Cultura), que apresentou ao público uma réplica da Carta de Pero Vaz de Caminha, documento transcrito por indígenas e pela Coordenação da Educação Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Porto Seguro, com apoio do CEMPEC e da Biblioteca Municipal de Porto Seguro, por meio de seu diretor, Laércio da Silva. O gesto ultrapassou o valor documental. Simbolicamente, permitiu que uma das primeiras narrativas escritas sobre esta terra fosse revisitada pelos descendentes daqueles que nela já viviam, ampliando a reflexão sobre memória, identidade e pertencimento. Entre os momentos mais marcantes da noite esteve a apresentação do poema Água Batendo na Pedra (2020), de autoria da professora Adriana Pesca Pataxó, interpretado em Língua Indígena de Sinais. Inspirado na narrativa sobre a origem do nome Pataxó, o poema uniu ancestralidade, território e acessibilidade em uma expressão artística que demonstrou que a cultura não apenas resiste ao tempo: ela encontra novos caminhos para permanecer. Ao final, ficou evidente que o encontro não tratou apenas da preservação de línguas indígenas. Tratou da permanência de um povo, de seus saberes e de sua memória. Em um tempo marcado pela velocidade e pelo esquecimento, o evento reafirmou que algumas heranças não desaparecem. Elas aguardam o momento de serem novamente ouvidas. Porque o que vai, de onde nasce, sempre volta. Ana Bandarra é advogada e escritora

Academia realizou o 1º Encontro de Línguas Indígenas e fortalece diálogo com o povo Pataxó

A Academia de Letras de Porto Seguro, na noite de 28 de agosto, no CEMPEC, promoveu o 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS). Coordenado pela acadêmica, professora e pesquisadora Adriana Pesca Pataxó, o encontro integrou pesquisadores indígenas, membros da Academia e comunidade em uma noite dedicada à reflexão sobre o fortalecimento das línguas originárias, a retomada do Patxohã e a importância das línguas indígenas de sinais. A atividade representa mais um passo da Academia na ampliação de sua relação com os povos originários e na construção de espaços permanentes para o diálogo entre literatura, memória, ancestralidade, pesquisa e produção intelectual indígena. Na abertura, o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira, destacou o caráter histórico do momento e a importância de a instituição atuar conjuntamente com o povo Pataxó no processo de fortalecimento do Patxohã. Em sua fala, ressaltou que a língua é um dos principais elementos de preservação da identidade e da memória de um povo e que a Academia pretende contribuir para ampliar os espaços de valorização, pesquisa, produção literária e difusão da cultura Pataxó. Na sequência, o acadêmico Carleone Filho falou sobre a importância da língua materna e apresentou reflexões históricas relacionadas à presença indígena no território de Porto Seguro. Entre os temas abordados, destacou a existência da Carta de Pero Vaz de Caminha em Patxohã, atualmente em Portugal, estabelecendo uma conexão simbólica entre a história oficial do país e a língua dos povos que já habitavam estas terras. Sob a condução de Adriana Pesca Pataxó, foi realizada em seguida uma reverência ancestral, com uma prece em Patxohã. O momento colocou a língua materna e a ancestralidade no centro da programação e reforçou o protagonismo indígena que orientou todo o encontro. A retomada do Patxohã O pesquisador Awoy Pataxó apresentou seu trabalho sobre o processo de retomada linguística do povo Pataxó. Em sua exposição, mostrou como o trabalho desenvolvido por pesquisadores, educadores e comunidades contribuiu para o reavivamento de uma língua que esteve muito próxima de desaparecer. Awoy apresentou a trajetória desse processo de reconstrução e destacou que o Patxohã conta hoje com um repertório de aproximadamente quatro mil vocábulos, resultado de um trabalho contínuo de pesquisa, memória e recuperação linguística. Mais do que recuperar palavras, a retomada do Patxohã representa a reconstrução de vínculos entre gerações e o fortalecimento da identidade Pataxó. A língua volta a ocupar espaço nas aldeias, na educação indígena, nas manifestações culturais e na produção autoral, reafirmando-se como um elemento vivo da cultura do povo Pataxó. Línguas Indígenas de Sinais O pesquisador David Kaique Pataxó Hãhãhãe apresentou seus estudos sobre as Línguas Indígenas de Sinais e sobre a Língua Indígena Pataxó de Sinais. Durante sua apresentação, explicou como os sinais possuem forte relação com o território e com a observação da natureza. Elementos da mata, movimentos dos animais e referências presentes no cotidiano das comunidades tornam-se parte da construção dos sinais, evidenciando uma forma própria de compreensão e representação do mundo. David também apresentou sua trajetória de pesquisa e ofereceu ao público um panorama sobre a presença e a utilização das línguas indígenas de sinais na região e em diferentes territórios indígenas do Brasil. A apresentação permitiu compreender que essas línguas não devem ser observadas apenas pelo aspecto da acessibilidade, mas também como manifestações de identidade, cultura e memória dos povos indígenas. Literatura e sinais encerram a programação O encontro foi encerrado com uma apresentação que reuniu diferentes formas de expressão. Adriana Pesca Pataxó realizou a leitura de um poema enquanto David Kaique Pataxó Hãhãhãe fez seu acompanhamento em sinais. O momento sintetizou a proposta do evento ao aproximar literatura, língua, ancestralidade e expressão corporal. Para a Academia de Letras de Porto Seguro, a realização do encontro reafirma o compromisso de ampliar a presença dos saberes originários em sua programação e de fortalecer a participação de pesquisadores, escritores, professores e intelectuais indígenas em suas atividades. Coordenado por Adriana Pesca Pataxó, o primeiro encontro também estabelece uma base para novas ações dedicadas ao estudo, à preservação e à difusão das línguas indígenas. Ao promover esse diálogo, a Academia reconhece que a história cultural e literária de Porto Seguro não pode ser compreendida sem a presença, a memória e a produção intelectual dos povos originários. O Patxohã permanece vivo. E, junto com ele, permanecem vivas a memória, a identidade e a voz de um povo que continua escrevendo sua própria história.

Academia de Letras de Porto Seguro realiza 1º Encontro de Línguas Indígenas

Evento reúne pesquisadores indígenas para discutir retomada linguística, educação, literatura, ancestralidade e o reconhecimento das Línguas Indígenas de Sinais A Academia de Letras de Porto Seguro realiza, no próximo dia 28 de agosto, às 19h, no CEMPEC, o 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS). A iniciativa propõe um espaço de diálogo, pesquisa e valorização das línguas originárias, reunindo pesquisadores indígenas do território para refletir sobre língua, identidade, educação, literatura e ancestralidade. Com o tema “Retomada Linguística do Povo Pataxó e seus desdobramentos comunitários, curriculares e de uma produção autoral multilíngue: educação, literatura e ancestralidade”, o encontro coloca no centro do debate o protagonismo indígena nos processos de preservação, retomada e fortalecimento de suas próprias línguas. A programação será coordenada e mediada pela acadêmica Adriana Pesca Pataxó, que destaca a importância de compreender a língua como elemento fundamental de pertencimento, memória e continuidade cultural. “O primeiro encontro de línguas indígenas realizado pela Academia de Letras de Porto Seguro será um momento de diálogo entre pesquisadores indígenas do território. A proposta é refletir sobre a trajetória de retomada do Patxôhã, língua materna do povo Pataxó, e sobre o movimento linguístico pelo reconhecimento das Línguas Indígenas de Sinais e da Língua Indígena Pataxó de Sinais, em uma roda ancestral sobre demarcação linguística, retomada, ancestralidade, literatura, educação e pertencimento”, afirma Adriana Pesca Pataxó. Para o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira, a realização do encontro também representa o compromisso da instituição com a pluralidade das manifestações literárias, linguísticas e culturais presentes no território. Entre os participantes está o professor mestre Awoy Pataxó, que abordará a trajetória da retomada linguística do povo Pataxó em Coroa Vermelha, o trabalho desenvolvido pelo Centro de Pesquisa Atxôhã e a importância da língua materna para a produção autoral e para a literatura indígena. Também integra a mesa o professor doutorando David Kaique Pataxó Hãhãhãe, que apresentará uma reflexão sobre as Línguas Indígenas de Sinais (LIS), relacionando as experiências desenvolvidas no território às discussões e aos movimentos existentes em âmbito nacional e internacional. A programação prevê ainda a participação do professor Tohô Pataxó, coordenador do ensino de Patxôhã em Porto Seguro, que deverá abordar a trajetória da retomada linguística Pataxó, o ensino do Patxôhã no município, a produção de materiais didáticos bilíngues destinados às escolas indígenas e o processo de cooficialização da língua no território. O encontro parte da compreensão de que uma língua ultrapassa sua função comunicacional. Ela guarda formas de compreender o mundo, memórias coletivas, conhecimentos transmitidos entre gerações e elementos fundamentais para a identidade de um povo. Nesse sentido, discutir a retomada linguística significa também discutir território, pertencimento, produção de conhecimento e autonomia cultural. Ao promover o encontro, a Academia de Letras de Porto Seguro amplia o diálogo entre literatura, oralidade, educação e os saberes dos povos originários, reconhecendo as línguas indígenas como patrimônio vivo e como parte essencial da diversidade cultural e intelectual do território de Porto Seguro. A programação terá início às 19h, com a recepção dos convidados e participantes. Às 19h30, acontece a abertura institucional da Academia de Letras de Porto Seguro, seguida, às 19h40, pela abertura da mesa, sob mediação de Adriana Pesca Pataxó, com reverência ancestral, canto, poética do encontro e composição da mesa-redonda. As exposições dos pesquisadores começam às 20h. Após as falas dos participantes da mesa, o encontro será aberto para perguntas e diálogo com a plenária. O encerramento está previsto para as 22h30.

Espetáculo dirigido pelo acadêmico Éder Rodrigues retorna aos palcos em Porto Seguro

O B(r)anco dos Réus terá apresentações gratuitas nos dias 28 e 29 de agosto, no Centro de Cultura de Porto Seguro O teatro volta a ocupar o palco como espaço de reflexão, denúncia e enfrentamento ao racismo. Nos dias 28 e 29 de agosto, às 19h30, o Centro de Cultura de Porto Seguro recebe uma nova temporada de O B(r)anco dos Réus, espetáculo dirigido pelo escritor, dramaturgo e acadêmico Éder Rodrigues, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, com atuação de Wenderson Ferreira. As apresentações terão entrada gratuita. Produzida pela Bifurca Produções Artísticas, a montagem retorna ao Centro de Cultura depois da repercussão de sua estreia no ano passado. Com uma estética marcada pela ironia e pelo confronto, a obra investiga algumas das formas pelas quais o racismo continua operando na sociedade brasileira, utilizando a linguagem teatral para provocar o público e questionar estruturas historicamente naturalizadas. Selecionado pelo Edital da PNAB/Bahia “Ocupe o Seu Espaço – Apoio à Produção e Ocupação Cultural”, o espetáculo constrói em cena uma espécie de tribunal performático. A partir desse dispositivo dramatúrgico, são colocadas em discussão questões relacionadas às afetividades negras, à religiosidade, à seletividade penal e às diferentes manifestações do racismo, especialmente aquelas que atingem de maneira cotidiana corpos e realidades negras. Em O B(r)anco dos Réus, o próprio título já anuncia o jogo de sentidos que atravessa a montagem. A obra direciona o olhar para os lugares historicamente ocupados pela branquitude nos sistemas de julgamento e, ao mesmo tempo, preserva a memória de vidas atingidas pela violência e pela estrutura racista brasileira. Mais do que oferecer respostas, o espetáculo provoca perguntas e transforma o palco em território de tensão, memória e consciência. A direção do acadêmico Éder Rodrigues reafirma uma trajetória artística vinculada à experimentação cênica e à utilização do teatro como instrumento de investigação das questões sociais contemporâneas. Para a Academia de Letras de Porto Seguro, a presença de um de seus acadêmicos à frente de uma produção dessa natureza também evidencia a amplitude da criação literária e artística produzida no território, aproximando literatura, dramaturgia, pensamento crítico e artes cênicas. A montagem aposta na força do ator e da palavra, reduzindo artifícios para colocar em primeiro plano o embate entre os fatos apresentados em cena e uma realidade marcada pela criminalização e pelo extermínio da população negra. As duas sessões contarão ainda com tradução em Libras e audiodescrição, ampliando a acessibilidade da experiência teatral. A classificação indicativa é de 16 anos. Serviço:

20 anos da Lei Maria da Penha, uma ponte em direção à igualdade absoluta

Por: Rose Marie Galvão Nesta sexta-feira, dia 7 de agosto, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A lei 11.340 foi sancionada em 07 de agosto de 2006 tornando crime a violência doméstica e familiar contra mulheres. Sem dúvidas, é um marco importante com objetivo de aumentar o rigor das punições das agressões contra as mulheres, pois, antes dela, os agressores eram “punidos” com o pagamento de cestas básicas, não existiam medidas protetivas, delegacias especializadas no atendimento ou juizados especializados. Ao longo dessas duas décadas, a lei trouxe avanços importantes como a criação de inúmeras políticas nos diversos poderes do Estado e no âmbito do Sistema de Justiça, da Segurança Pública, da Assistência Social, da Educação ou da Saúde. Foram criadas Varas especializadas para julgar violência contra a mulher, hoje existentes em todos os Estados brasileiros, bem como Casas da Mulher Brasileira, espaços de atendimento e acolhimento de mulheres em situação de violência.  Na Segurança Pública, foram instaladas Delegacias da Mulher em todos os Estados. As Patrulhas Maria da Penha, tanto ligadas à Polícia Militar quanto às vinculadas à Guarda Municipal, em vários Estados e municípios do país, têm prestado excelente trabalho no acolhimento, proteção e acompanhamento de mulheres em situação de Violência Doméstica. Também temos os Núcleos ou Centros de Apoio Operacional da Mulher, a Comissão da Mulher Advogada do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e nas seccionais, e o Núcleo de Defesa e Proteção aos Direitos da Mulher – NUDEM. Reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica e familiar, devemos reconhecer que ao longo desses anos, a legislação fortaleceu mecanismos de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores. Evidentemente, a legislação trouxe avanços ao Código Penal brasileiro.  Apesar desses avanços, os índices de violência de gênero seguem alarmantes no país. As agressões seguem assustando e o medo, infelizmente, ainda continua sendo o maior inimigo das mulheres que sofrem violência doméstica, uma vez que, a impunidade cede lugar para a justiça. Segundo dados recentes, o Brasil registra, em média, quatro feminicídios por dia, evidenciando a urgência da ampliação das políticas públicas voltadas à prevenção, ao acolhimento das vítimas e à garantia de direitos. Nesse contexto, dentre as iniciativas para garantir mais segurança, ganha destaque, em Eunápolis, os esforços envidados pela deputada estadual Cláudia Oliveira, incansável na luta pela implantação do NEAM (Núcleo Especializado de Atendimento à Mulher) em Eunápolis, que funciona desde agosto do ano passado, como unidade da Polícia Civil da Bahia voltada para o acolhimento, registro de ocorrências, pedidos de medidas protetivas e investigação de crimes de violência doméstica e familiar contra as mulheres. O NEAM veio permitir que o município ampliasse suas ações de prevenção, proteção, assistência e promoção dos direitos das mulheres, fortalecendo a aplicação da Lei Maria da Penha em todo o território eunapolitano. Em celebração a este marco, compartilhamos neste espaço do site, a data que consideramos comemorativa para o nosso país, onde há 20 anos as mulheres podem ter proteção e assistência, além de uma grande humanização. E essa data, que a gente faz questão de lembrar, é um divisor de águas no contexto da violência doméstica em nosso país. Por outro lado, queremos lembrar que a violência contra a mulher não é apenas a violência física. É tudo que possa constranger, humilhar, ameaçar, enganar. A Lei Maria da Penha é a força de que a mulher precisa para fazer valer seus direitos.  Não é um muro. É uma ponte pacientemente erguida em direção à igualdade absoluta.

Academia de Letras de Porto Seguro realiza Sessão Solene de Abertura do Ano Acadêmico de 2026

A Academia de Letras de Porto Seguro realiza, no próximo dia 23 de fevereiro, às 19h30, na Câmara de Vereadores de Porto Seguro, a Sessão Solene de Abertura do Ano Acadêmico de 2026. A cerimônia marca também a celebração dos 8 anos de fundação da instituição e será histórica: esta é a primeira vez que a Academia abre oficialmente seus trabalhos anuais por meio de uma sessão solene. Durante o evento, a instituição divulgará publicamente toda a programação cultural, literária e formativa prevista para 2026, reafirmando seu compromisso com a produção intelectual, o incentivo à leitura e a valorização da cultura na região. A noite será marcada pela posse do escritor Aleilton Fonseca como Membro Honorário da ALPS. O discurso de recepção ao novo membro será proferido pelo acadêmico Cícero Sena. Literatura, institucionalidade e projeção cultural A cerimônia reunirá autoridades, acadêmicos, representantes da cultura e membros da sociedade civil em uma celebração dedicada à palavra, à memória e ao pensamento. Para o presidente Rod Pereira da Academia de Letras de Porto Seguro, o momento simboliza um novo ciclo institucional: “Realizar, pela primeira vez, a abertura do ano acadêmico em formato solene representa um amadurecimento institucional. Celebramos nossos oito anos reafirmando o compromisso com a literatura, com a memória cultural e com a construção de pontes entre instituições. Receber Aleilton Fonseca, poeta, ficcionista e atualmente presidente da Academia de Letras da Bahia e da RICA – Rede de Academias de Letras da Bahia, como Membro Honorário, fortalece o diálogo entre as academias, amplia a integração cultural no Estado e engrandece a nossa Casa.” O novo acadêmico Aleilton Fonseca é poeta, ficcionista, ensaísta e professor, com sólida trajetória na literatura brasileira contemporânea. Autor de obras nos gêneros da poesia, do conto e do romance, destaca-se pela densidade estética e pelo diálogo entre memória, identidade e cultura. Preside atualmente a Academia de Letras da Bahia e a RICA – Rede de Academias de Letras da Bahia, desempenhando papel fundamental na articulação e fortalecimento das instituições literárias no Estado. Sua incorporação como Membro Honorário reafirma o compromisso da Academia de Letras de Porto Seguro com a excelência intelectual e com o fortalecimento das redes culturais baianas. Concerto de Celebração A solenidade será concluída com um pocket show da cantora Adriana Novaes, que passa a se apresentar ao lado do Maestro Pepe Semenzato, marcando a estreia de uma nova e sofisticada fase artística. O concerto apresentará uma verdadeira viagem pelos clássicos da música popular brasileira, conduzindo o público por repertórios consagrados da MPB e da Bossa Nova. Em formato intimista de voz e piano, Adriana interpreta canções que atravessam gerações, enquanto o piano de Pepe Semenzato oferece suporte técnico e sensível, unindo refinamento clássico e liberdade interpretativa. O momento artístico celebra a integração entre literatura e música, encerrando a noite com emoção, elegância e grandeza. Serviço Sessão Solene de Abertura do Ano Acadêmico de 2026Posse de Aleilton Fonseca como Membro Honorário Data: 23 de fevereiroHorário: 19h30Local: Câmara de Vereadores de Porto Seguro Evento aberto ao público.

Sessão Solene celebra a literatura, a memória cultural e os vencedores dos Prêmios Raimundo Costa e da Academia de Letras

A Academia de Letras de Porto Seguro realizou, no CEMPEC – Centro Municipal de Pesquisa em Educação e Cultura – uma Sessão Solene memorável, marcada por emoção, reconhecimento e celebração da palavra escrita. O evento reuniu autoridades, escritores, estudantes, artistas, familiares, representantes da imprensa local e um expressivo número de acadêmicos presentes: Éder Rodrigues, Paulo Sérgio Rosseto, Verônica Souza, André Simeão, Carleone Filho, Gilvan Florêncio e o presidente da instituição, Rod Pereira, que conduziu a cerimônia. A noite foi aberta pelo presidente Rod Pereira, que trouxe uma reflexão atual sobre o papel da palavra em um tempo dominado pela velocidade das redes sociais. Em sua fala, destacou os ideais que norteiam a Academia: preservar a literatura, fortalecer a educação, valorizar a memória cultural e incentivar novas gerações de leitores e escritores. Essa perspectiva guiou toda a solenidade, que alternou arte, homenagens e celebrações literárias. Intervenções Artísticas O primeiro bloco artístico da noite trouxe duas apresentações que prepararam o público para o clima literário da solenidade. O acadêmico André Simeão apresentou a leitura da exposição Ominabovis, seguida da performance musical do poeta e compositor André Pie e Navarro Lemos, que trouxe uma interpretação sensível especialmente preparada para a ocasião de composições de Raul Seixas. Após o primeiro momento de premiações, duas novas intervenções retomaram a atmosfera artística da noite.A poeta Ayê Akin apresentou uma performance intensa de Slam Poetry, destacando a força da palavra falada. Em seguida, a Cia de Teatro Prosopopeia emocionou o público com Eu e os Versos Íntimos de Augusto, inspirada no poema de Augusto dos Anjos. Prêmio Literário Raimundo Costa A primeira edição do Prêmio Literário Raimundo Costa reconheceu jovens escritores e prestou homenagem a um dos maiores memorialistas de Porto Seguro. A premiação contou com o apoio do CEMPEC, do Instituto Portobello, da Câmara de Vereadores de Porto Seguro e da Secretaria Municipal de Educação. A presença da família de Raimundo Costa trouxe um dos momentos mais emocionantes da noite, especialmente com o discurso sensível de sua filha, Marlígia Costa. A representante do Instituto Portobello reafirmou o compromisso da instituição com a formação cultural dos jovens, destacando a entrega de um notebook ao vencedor Wellington Lima, como incentivo à continuidade de sua produção literária. Outro momento marcante ocorreu quando Sheila Rocha, autora com menção honrosa, entregou pessoalmente o troféu ao filho, Erick Rocha, segundo colocado, em um gesto que tocou profundamente o público. Menções Honrosas – Prêmio Raimundo Costa • 1ª Menção Honrosa: Jéssica Maurício – “Meu Porto”• 2ª Menção Honrosa: Guilherme Neves – “542 Anos na Foz do Rio Buranhém”• 3ª Menção Honrosa: Caz Ångela – “A Origem da Língua”• 4ª Menção Honrosa: Ana Clara Valença – “Mangue de Cor”• 5ª Menção Honrosa: Eike Costa – “A Cidade de Duas Faces”• 6ª Menção Honrosa: Sheila Rocha – “Porto Beleza à Vista ou Tristeza Escondida”• 7ª Menção Honrosa: Ayê Akin – “Zona de Sacrifícios” Premiados – Prêmio Raimundo Costa • 3º Lugar: Thayane Fehlberg – “Nas Ondas da História”• 2º Lugar: Erick Rocha – “A Cidade que Guarda Mágoas”• 1º Lugar – Vencedor: Wellington Lima – “O Adeus de Inaiá”(Premiação: Notebook oferecido pelo Instituto Portobello) Prêmio da Academia de Letras de Porto Seguro Encerrando a noite, foram entregues as homenagens do Prêmio da Academia de Letras de Porto Seguro, criado para reconhecer personalidades que contribuem de forma marcante para a literatura, a educação e a cultura da cidade. Os discursos preparatórios foram apresentados por acadêmicos da instituição:• Carleone Filho, que homenageou Miriam Silva (Mérito Cultural)• André Simeão, que leu o texto preparado por Martha Matos homenageando Ione Maria Bittencourt Oliveira (Educação e Leitura)• Rod Pereira, que homenageou o escritor Fernando Freire (Produção Literária) As falas dos homenageados emocionaram o público e reforçaram o papel da Academia como espaço de memória, diálogo e estímulo à palavra. Perspectivas e Anúncios para 2026 A Sessão Solene também apresentou ações que orientarão o calendário literário da Academia no próximo ano. Entre as iniciativas anunciadas: • Retorno da Semana Literária de Porto Seguro• Criação de Prêmio Estudantil de Literatura• Lançamento da Coletânea Raimundo Costa• Cursos e oficinas literárias ao longo do ano Encerramento Ao final da cerimônia, o presidente Rod Pereira reafirmou o compromisso da instituição com a palavra e com o futuro da literatura na cidade:

Academia de Letras de Porto Seguro realiza sessão solene em uma noite dedicada à literatura e à cultura

Cerimônia celebra os homenageados do Prêmio da Academia e apresenta os vencedores da primeira edição do Prêmio Literário Raimundo Costa A Academia de Letras de Porto Seguro realizará, na segunda-feira, 8 de dezembro, às 19h30, no CEMPEC, sua Sessão Solene dedicada a reconhecer e celebrar personalidades que contribuem para a literatura, a cultura e a educação da região. O evento marca um momento histórico para a ALPS: a entrega do Prêmio da Academia de Letras de Porto Seguro e a homenagem pública aos vencedores da primeira edição do Prêmio Literário Raimundo Costa, anunciados em outubro. PRÊMIO DA ACADEMIA Criado para reconhecer trajetórias que fortalecem a palavra, preservam memórias e transformam realidades, o Prêmio da Academia destaca três nomes cuja contribuição é incontestável: Produção Literária – Fernando Freire Dramaturgo, roteirista, diretor e escritor de sólida atuação, Fernando Freire representa a força criativa que atravessa teatro, cinema, rádio e literatura. Autor de obras encenadas em grandes palcos e de produções audiovisuais premiadas, registra ainda a alma de Porto Seguro em suas crônicas, reunidas em O Melhor do Gabiru. Sua trajetória reafirma o impacto da literatura como documento vivo da identidade regional. Mérito Cultural – Miriam Silva Pesquisadora, gestora e líder comunitária, Miriam Silva tem papel fundamental na valorização da cultura afro-brasileira no município. Co-criadora da Semana Literária de Porto Seguro — o terceiro evento literário mais antigo da Bahia —, ela ampliou o acesso a projetos culturais, incentivou autores e fortaleceu ações de igualdade racial. Sua atuação no Instituto Sociocultural Brasil Chama África e no Centro de Cultura consolidou um legado de transformação e mobilização cultural. Educação e Leitura – Ione Maria Bittencourt Educadora referência no município, Ione desenvolveu inúmeros projetos pedagógicos inovadores, muitos deles integrando teatro, leitura e cultura popular. Sua atuação defendeu a presença da capoeira e da cultura afro-brasileira nas escolas e, por meio da Casa da Amizade, promoveu atividades culturais e de incentivo à leitura que impactaram crianças e famílias. Ione reafirma o papel da literatura como caminho de emancipação e pertencimento. PRÊMIO RAIMUNDO COSTA O Prêmio Raimundo Costa nasce com a missão de estimular novos escritores e valorizar a produção literária inspirada na história, na memória e na identidade de Porto Seguro. Em sua primeira edição, dedicada exclusivamente à poesia, os vencedores são: VENCEDORES MENÇÕES HONROSAS A Coletânea de Poemas do Prêmio Raimundo Costa será lançada em 2026, reunindo as obras vencedoras e selecionadas para perpetuar esta iniciativa que já nasce como referência literária local. “O Prêmio Raimundo Costa revela novas vozes que enriquecem nossa memória literária, enquanto o Prêmio da Academia reconhece aqueles que transformam educação, cultura e palavra em legado vivo para Porto Seguro. Celebramos com essas premiações não apenas vencedores, mas o futuro da literatura que construímos juntos.” Rod Pereira – Presidente da Academia de Letras de Porto Seguro Compromisso com a literatura, a cultura e o futuro Ao celebrar estes prêmios, a Academia de Letras de Porto Seguro reafirma seu compromisso em fortalecer a produção literária regional, incentivar novos talentos e reconhecer trajetórias que fazem da palavra um instrumento de memória, identidade e transformação. SERVIÇO Sessão Solene da Academia de Letras de Porto SeguroEntrega do Prêmio da Academia de Letras e celebração do Prêmio Literário Raimundo Costa📅 Segunda-feira, 8 de dezembro🕒 19h30📍 CEMPEC – Av. Pero Vaz de Caminha, ao lado da Câmara de Vereadores🎟 Entrada gratuita

Paulo Sérgio Rosseto e a Arte de Transformar Memórias em Literatura

O Barbeiro de Selvíria: um romance que resgata vidas, lugares e tempos guardados na memória afetiva Há obras literárias que nascem de grandes acontecimentos, e outras que surgem de pequenas fagulhas aparentemente ordinárias. O Barbeiro de Selvíria pertence a esta segunda linhagem: a das obras que se constroem a partir do detalhe, da memória, da lembrança guardada num objeto comum que, após décadas, revela profundidade e significado. Foi a partir de uma fotografia antiga, encontrada pelo autor Paulo Sérgio Rosseto, que se iniciou o processo que daria origem a este romance íntimo, poético e profundamente humano. Nela estava inscrita, à mão, uma frase simples e poderosa: “Rio Paraná, 1967”. Uma frase capaz de abrir todo um universo. Rosseto parte dessa imagem material para desenvolver uma narrativa que interliga passado e presente, ficção e realidade, e que resgata a trajetória de uma família real em um Brasil de profundas transformações sociais, econômicas e culturais. Mais do que recontar fatos, o autor revisita raízes, interpreta gestos, recria atmosferas e restitui vidas à memória. O resultado é um romance maduro, construído com sensibilidade, rigor emocional e elegância literária. Ambientado no final dos anos 1960, em plena reorganização geográfica das fronteiras do Centro-Oeste, O Barbeiro de Selvíria acompanha a jornada da família de João Marconetti rumo a Selvíria. O projeto narrativo do autor vai além da descrição dos acontecimentos: ele transforma um deslocamento familiar em epopeia silenciosa, revestida de humanidade e significado profundo. João, figura central do romance, é apresentado não como um herói tradicional, mas como um símbolo da força cotidiana do homem comum. Em seu ofício de barbeiro, e em seu papel de pai, esposo e provedor, ele assume uma grandeza que nasce do silêncio, da persistência e do trabalho. A paisagem é componente essencial da obra. Rosseto demonstra habilidade singular em transformá-la em elemento narrativo orgânico. O Rio Paraná surge como presença constante, quase espiritual, marcando encontros, despedidas e destinos. A travessia de barco, o calor opressivo, as estradas longas e poeirentas do interior brasileiro e as pequenas cidades que compõem a região não são meros cenários, mas forças vivas que moldam as pessoas e os tempos. A natureza, na escrita de Rosseto, tem corpo, voz e memória. A narrativa se desenvolve em ritmo contemplativo, respeitando o tempo da memória e da afetividade. Os capítulos equilibram fluidez e profundidade, e mostram uma maturidade narrativa que só pode ser fruto de longa experiência literária do autor, também reconhecido como poeta. Isso se traduz na delicadeza da linguagem, na escolha precisa das palavras e na capacidade de criar imagens literárias que permanecem com o leitor muito após o fim da leitura. Ao mesmo tempo, o romance recupera aspectos socioculturais da época que ajudam a compreender o contexto de tantas famílias brasileiras que, naquele período, migravam em busca de oportunidades, terra, trabalho e dignidade. A obra funciona como registro histórico sensível e, simultaneamente, como reconstrução poética de um Brasil interiorano pouco visível na literatura contemporânea. Rosseto ilumina vidas que, na maioria das vezes, permanecem fora dos grandes relatos oficiais, mas que ergueram o país com suor, esperança e coragem. Outro elemento fundamental da obra é a memória afetiva: ela não é apenas tema, mas método. Rosseto revisita fatos com a maturidade de quem compreende que recordar não é copiar o que já aconteceu, mas reinterpretar o vivido à luz do que se tornou. O passado, no romance, não é estático. Ele continua vivo, respirando, pulsando e transformando-se no presente. Essa postura confere à obra um caráter quase ritualístico: lembrar aqui se torna um gesto de amor e preservação. Do ponto de vista estilístico, O Barbeiro de Selvíria equilibra cuidadosamente lirismo e objetividade. Há momentos em que a prosa se aproxima da poesia e entrega ao leitor imagens carregadas de emoção, silêncio e profundidade. Em outros, a narrativa assume caráter direto, transparente, guiando o leitor com clareza pelas linhas centrais da história. Essa alternância habilidosa cria ritmo e textura narrativa. Não há pressa nas páginas do livro. E talvez seja justamente essa ausência de urgência que permita que o leitor mergulhe totalmente nas atmosferas criadas pelo autor. O romance convida a uma leitura atenta, sensível, aberta à introspecção e à identificação. Muitos leitores, de diferentes origens e gerações, encontrarão na história de João Marconetti reflexos de suas próprias famílias, avós, pais ou tios que também enfrentaram suas travessias particulares. Ao final, o livro oferece mais do que uma história: oferece reconciliação com o passado, reconhecimento dos antepassados, valorização da identidade e retorno simbólico ao lugar de origem. O Barbeiro de Selvíria é, acima de tudo, uma celebração da memória – individual e coletiva. Uma obra que honra o tempo, a terra, o silêncio e a trajetória daqueles que vieram antes de nós. Rod PereiraDramaturgo, consultor de marketing, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, cronista e provocador de ideias. “Meu texto é farpa e abraço, caos e poesia.Sempre com uma boa dose de ironia e humanidade”